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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Você não está sozinho: como a fisioterapia pode ajudar sua família a viver melhor com o Alzheimer

Existe algo que pode fazer uma diferença real no dia a dia da sua família: a fisioterapia.

Se você chegou até este texto, provavelmente já conhece a dor de ver alguém que você ama se perdendo aos poucos. Talvez você tenha notado que sua mãe esqueceu o nome do neto. Que seu pai não lembra mais onde mora. Que a pessoa que sempre cuidou de você agora não consegue se cuidar sozinha.

E talvez você também conheça o cansaço, o medo, a culpa por perder a paciência. A tristeza de ver quedas cada vez mais frequentes. O peso de carregar tudo sozinho enquanto tenta manter a rotina, o trabalho e a própria vida.

Você não está sozinho. E você não precisa passar por isso sem apoio.

Este artigo não vai prometer cura, porque ainda não existe. Mas vai mostrar que existe algo que pode fazer uma diferença real no dia a dia da sua família: a fisioterapia. E não qualquer fisioterapia. Uma fisioterapia que entende o Alzheimer, que preserva a dignidade, que reduz as quedas, que mantém a mobilidade, que ajuda seu familiar a permanecer ativo e presente por mais tempo.

Que dá um pouco de alívio para quem cuida. E que devolve, dentro do possível, qualidade de vida para quem está doente.

1- O que você está vivendo tem nome, e não é culpa de ninguém

O Alzheimer não é esquecimento normal da idade. Não é frescura. Não é falta de atenção. É uma doença neurológica progressiva e irreversível que destrói as conexões do cérebro e leva embora, aos poucos, a memória, o raciocínio, a autonomia e até a personalidade da pessoa.

Mais de 55 milhões de pessoas no mundo vivem com demência, e o Alzheimer é responsável por 60 a 70% dos casos. No Brasil, são mais de 1,7 milhão de famílias passando pelo que você está passando agora.

"Minha mãe me pergunta a mesma coisa 10 vezes em 5 minutos. Eu sei que ela não faz de propósito, mas é difícil não me irritar. Depois eu me sinto horrível."— Cuidadora, 52 anos

É normal sentir raiva. É normal sentir tristeza. É normal sentir exaustão. Cuidar de alguém com Alzheimer é um dos trabalhos mais difíceis do mundo, e geralmente é feito por amor, sem preparo, sem folga e sem reconhecimento.

Reconhecer a doença é o primeiro passo para saber o que fazer.

Os sinais que você já viu (e que não podem ser ignorado)

Talvez você já tenha percebido alguns desses sinais no seu familiar:

• Esquece conversas que acabaram de acontecer, mas lembra perfeitamente de coisas de 40 anos atrás;

• Não consegue mais fazer tarefas simples, como usar o telefone ou cozinhar algo que sempre fez;

• Fica confuso sobre dia, mês, ano ou onde está;

• Perde objetos e acusa outras pessoas de terem roubado;

• Mudou completamente o jeito de ser: está agressivo, desconfiado, apático ou triste;

• Tem dificuldade para caminhar, tropeça com frequência, já caiu algumas vezes.

Se você reconheceu 3 ou mais desses sinais, procure um neurologista ou geriatra. Quanto antes o diagnóstico, maior a chance de preservar a funcionalidade e a qualidade de vida.

Não espere a situação ficar insuportável. Busque ajuda enquanto ainda há tempo de agir.

A dor que ninguém vê: o peso de ser cuidador.

Você acorda cedo. Ajuda no banho. Prepara a comida. Dá os remédios. Limpa a casa. Lava a roupa. Vigia para que ele não saia sozinho. Explica a mesma coisa 20 vezes. Consola quando ele chora sem saber por quê. Segura quando ele fica agressivo. Esconde o medo quando ele quase cai.

E no meio disso, você ainda tenta manter seu trabalho, cuidar dos filhos, pagar as contas. Não desabar.

"Eu larguei meu emprego para cuidar do meu pai. Não tenho mais vida social. Durmo 4 horas por noite. E tem dias que eu me sinto a pior pessoa do mundo porque eu desejo que isso acabe logo."— Filha cuidadora, 48 anos

Estudos mostram que cuidadores de pessoas com Alzheimer têm:

• 3 vezes mais risco de desenvolver depressão;

• Maior incidência de doenças cardiovasculares e distúrbios do sono;

• Sobrecarga física e emocional comparável a trabalhar em dois empregos simultâneos.

Cuidar de quem a gente ama não pode significar destruir a própria saúde. Você também precisa de cuidado.

Como a fisioterapia pode mudar a rotina da sua família

A fisioterapia não vai reverter o Alzheimer. Nada vai. Mas ela pode fazer algo que importa muito mais no dia a dia: preservar a mobilidade, prevenir quedas, manter a autonomia e melhorar a qualidade de vida, do paciente e de quem cuida.

Vou te explicar como, de forma prática e honesta.

1- Reduzir o Medo das Quedas (Que Assombra Todos os Cuidadores)

Quedas são uma das maiores fontes de angústia para quem cuida. E com razão: pacientes com Alzheimer caem até 3 vezes mais que idosos sem demência. Uma queda pode significar fratura de fêmur, cirurgia, acamamento — e aceleração brusca do declínio cognitivo e funcional.

"Meu pai caiu 4 vezes em 6 meses. Cada vez que eu ouvia o barulho, meu coração parava. Depois que começamos a fisioterapia, ele ficou mais firme. Faz 8 meses que não cai."— Filho cuidador, 55 anos

A fisioterapia trabalha:

• Fortalecimento muscular de pernas e core (centro do corpo);

• Treino de equilíbrio estático e dinâmico;

• Coordenação motora e correção da marcha;

• Adaptação do ambiente doméstico (retirada de tapetes, instalação de barras de apoio, iluminação adequada).

Evidências científicas mostram que intervenções fisioterapêuticas reduzem em até 30% o risco de quedas em idosos com demência. Isso significa menos medo. Menos noites sem dormir. Menos idas ao pronto-socorro.

2- Manter a Mobilidade (Para Que Ele Ainda Consiga Se Levantar, Andar, Viver)

Um dos momentos mais difíceis para qualquer família é quando a pessoa perde a capacidade de andar. Quando isso acontece, a dependência se torna total — e a sobrecarga sobre o cuidador aumenta exponencialmente.

A fisioterapia não impede a progressão da doença, mas pode retardar significativamente a perda da marcha. Exercícios regulares de mobilidade, alongamento e caminhada assistida mantêm os músculos ativos, as articulações funcionais e a pessoa em movimento.

Enquanto ele ainda consegue andar, ele ainda tem autonomia. E autonomia é dignidade.

3- Preservar as Atividades do Dia a Dia (Vestir-se, Comer, Tomar Banho)

Quando a pessoa perde a capacidade de fazer as atividades básicas da vida — vestir-se, alimentar-se, ir ao banheiro —, ela perde também a sensação de ser gente. E o cuidador assume sozinho todo esse trabalho físico e emocional.

A fisioterapia funcional treina essas atividades cotidianas de forma repetitiva e progressiva, fortalecendo a memória motora (que resiste mais tempo que a memória verbal) e preservando a independência pelo máximo de tempo possível.

"Depois que minha mãe começou a fisioterapia, ela voltou a conseguir se vestir sozinha. Parece pouco, mas para mim significou 40 minutos a mais de sono toda manhã — e para ela, significou se sentir útil de novo."— Filha cuidadora, 44 anos

4- Reduzir a Agitação, a Ansiedade e os Problemas de Sono

Pacientes com Alzheimer frequentemente apresentam agitação noturna, ansiedade, agressividade e insônia. Isso destrói a rotina da casa, e a saúde mental de quem cuida.

O exercício físico regular tem efeito comprovado na redução desses sintomas neuropsiquiátricos. Ele regula o ciclo sono-vigília, reduz a ansiedade, melhora o humor e diminui comportamentos agressivos, porque gasta energia, libera endorfina e reorganiza os ritmos biológicos.

Uma noite de sono decente pode ser a diferença entre conseguir ou não continuar cuidando.

5- Dar Apoio para Você (Sim, para Você Também)

Um bom fisioterapeuta não trata só o paciente. Ele orienta a família. Ensina como ajudar na transferência da cama para a cadeira sem machucar as costas. Como estimular a caminhada em casa. Como adaptar o banheiro. Como reconhecer sinais de piora.

E, talvez o mais importante: ele valida o que você está sentindo. Ele te diz que está tudo bem não dar conta de tudo. Que você está fazendo o melhor que pode. Que você não precisa carregar isso sozinho.

O que a ciência diz

Não estou inventando nada disso. Estou te mostrando o que os estudos mais sérios do mundo já provaram:

• Exercício físico regular aumenta o tamanho do hipocampo (área da memória no cérebro) mesmo em pacientes com comprometimento cognitivo leve (Erickson et al., 2011);

• Intervenções fisioterapêuticas reduzem o risco de quedas em até 30% (Sherrington et al., 2019);

• Programas de exercício diminuem significativamente a agitação, a apatia e os distúrbios de sono (Engedal et al., 2020);

• Fisioterapia funcional retarda a perda de autonomia e reduz a sobrecarga do cuidador (Forbes et al., 2015).

Isso não é promessa milagrosa. É evidência. E evidência é o que permite que você tome decisões informadas sobre o cuidado de quem você ama.

O que você pode fazer agora (passo práticos)

Se você leu até aqui, talvez esteja se perguntando: 'E agora? Por onde eu começo?'

Aqui está um caminho claro:

Passo 1: Busque o diagnóstico médico

Neurologista ou geriatra. Quanto antes, melhor. O diagnóstico precoce abre portas para tratamento medicamentoso, acompanhamento multiprofissional e acesso a direitos (como isenção de impostos, prioridade em filas, BPC-LOAS).

Passo 2: Monte uma equipe multiprofissional

Médico + Fisioterapeuta + Terapeuta Ocupacional + Fonoaudiólogo + Psicólogo (para o paciente e para você). Não precisa ser tudo ao mesmo tempo. Comece pelo que é possível.

Passo 3: Inicie a fisioterapia o quanto antes

Procure um fisioterapeuta com experiência em neurologia e geriatria. Idealmente, alguém que faça atendimento domiciliar (porque deslocamentos podem ser difíceis). O ideal é 2 a 3 vezes por semana, mas mesmo 1 vez já faz diferença.

Passo 4: Adapte a casa para prevenir quedas

Retire tapetes. Instale barras de apoio no banheiro. Melhore a iluminação. Remova móveis no caminho. Isso pode salvar a vida dele — e a sua sanidade mental.

Passo 5: Cuide de você também

Procure grupos de apoio para familiares (a ABRAz oferece gratuitamente). Considere terapia para você. Aceite ajuda quando oferecerem. Tire uma hora por semana só para você. Não é egoísmo. É sobrevivência.

Você só consegue cuidar de quem você ama se você também estiver inteiro.

Uma palavra final: Você está fazendo o melhor que pode

Eu sei que há dias em que você sente que não aguenta mais. Dias em que você perde a paciência. Dias em que você chora escondido. Dias em que você pensa 'eu não dou conta'.

Mas a verdade é que você está dando conta. Você está aqui. Você está lendo este texto porque está buscando ajuda. Porque quer fazer melhor. Porque ama.

O Alzheimer é cruel. Mas o amor que você está demonstrando ao cuidar de quem precisa não é pequeno. E a fisioterapia pode ser uma aliada, para preservar a dignidade dele, para aliviar o peso sobre você, para dar um pouco mais de tempo, um pouco mais de qualidade, um pouco mais de vida.

Se não há cura, que haja conforto. Se não há cura, que haja acolhimento. Se não há cura, que haja qualidade de vida, para quem está doente e para quem cuida.

Você não está sozinho. E você não precisa carregar isso sozinho.

Onde buscar ajuda e informações

ABRAz — Associação Brasileira de Alzheimer

Grupos de apoio gratuitos para familiares e cuidadores em todo o Brasil.

Site: www.abraz.org.br

Ministério da Saúde — Guia de Atenção à Pessoa com Alzheimer

Material educativo gratuito sobre cuidados, direitos e benefícios.

SUS — Sistema Único de Saúde

Fisioterapia, medicamentos e acompanhamento multiprofissional gratuitos. Procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima.

BPC-LOAS — Benefício de Prestação Continuada

Benefício assistencial para idosos com deficiência de baixa renda. Procure o INSS ou o CRAS.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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