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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Fevereiro Roxo: quando o corpo ataca a si mesmo, e a fisioterapia oferece o caminho do cuidado

O roxo simboliza o alerta para doenças crônicas que transformam a vida de milhões de brasileiros.

Fevereiro, no Brasil, costuma ser sinônimo da explosão de cores do Carnaval. No entanto, há alguns anos, o mês também se veste de uma cor mais sóbria e profunda: o roxo. Esta escolha não é casual. O roxo simboliza o alerta para doenças crônicas que, embora invisíveis aos olhos desatentos, transformam a vida de milhões de brasileiros. Entre elas, destaca-se o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Sob o lema "Se não posso curar, posso cuidar!", a campanha Fevereiro Roxo é um grito coletivo por ciência, empatia e, acima de tudo, pelo direito de viver bem, apesar do diagnóstico.

O que é o Lúpus, e por que ele é tão traiçoeiro?

Imagine um exército projetado para proteger uma fortaleza que, por um erro de comunicação, passa a atacar as próprias muralhas que deveria defender. Isso é o Lúpus. É uma doença autoimune crônica, caracterizada pela produção de autoanticorpos que agridem o núcleo das nossas células. Essa "confusão" imunológica gera inflamações em cascata, afetando o tecido conjuntivo e diversos órgãos.

O Lúpus é uma patologia de mil faces. Ele se apresenta de forma recorrente e remitente (com períodos de crise e calmaria), manifestando-se frequentemente através de lesões na pele, rins, articulações e membranas serosas. No Brasil, cerca de 65 mil pessoas vivem com a condição. É uma doença que escolhe gênero e idade: afeta majoritariamente mulheres jovens, em fase reprodutiva, na proporção de nove a dez mulheres para cada homem.

Não há cura, e o tratamento medicamentoso é o alicerce da sobrevivência. Contudo, para que essa sobrevivência se transforme em vida plena, a medicina precisa de uma aliada poderosa: a ciência do movimento.

O que a neurociência nos ensina sobre o Lúpus

Para cuidar do corpo, precisamos entender a "central de comando". O Sistema Nervoso Central (SNC), composto pelo encéfalo e medula espinhal, também pode ser alvo do Lúpus. Quando isso ocorre, surge o chamado "neurolúpus" ou lúpus neuropsiquiátrico, uma condição que atinge entre 38% e 65,8% dos pacientes, sendo um dos maiores desafios para a qualidade de vida.

Mas a ciência moderna nos revela algo ainda mais profundo: a neuroinflamação sistêmica. A ativação de células gliais (microglia e astrócitos) e a liberação de citocinas inflamatórias criam um ciclo vicioso de dor e fadiga que nenhum exame de sangue comum consegue capturar totalmente.

Na dor crônica, o sistema nervoso torna-se hiperativo, um fenômeno chamado sensibilização central. É por isso que a dor do Lúpus não é "coisa da cabeça" do paciente; é uma resposta neural alterada. E é exatamente aqui que o movimento terapêutico orientado atua, ajudando a "recalibrar" essa resposta do cérebro.

Por que a fisioterapia importa (e a ciência confirma)

Viver com Lúpus muitas vezes significa conviver com uma fadiga avassaladora, menor tolerância ao esforço e um risco aumentado de depressão. Diante desse cenário, a fisioterapia deixa de ser um "complemento" para se tornar um pilar essencial.

A literatura científica é clara:

Capacidade Funcional: A combinação de cinesioterapia e exercícios aeróbicos aumenta a autonomia do paciente. Técnicas como o método Bobath, mobilização articular e fortalecimento muscular são ferramentas de liberdade.

Combate à Fadiga: Estudos mostram melhoras clinicamente significativas nos níveis de energia de quem se exercita de forma supervisionada.

Alívio da Dor: O uso de recursos como o TENS (estimulação elétrica) auxilia no controle da dor e da rigidez matinal, especialmente nos quadris e tornozelos, dialogando diretamente com os mecanismos de sensibilização central.

O ponto crucial aqui é a individualidade. No Lúpus, não existe "receita de bolo". O tratamento deve ser único, respeitando as limitações e os órgãos afetados em cada indivíduo.

O que a fisioterapia não faz, e o que ela transforma

É preciso honestidade: a fisioterapia não cura o Lúpus. Mas ela é capaz de transformar a experiência de habitar um corpo com a doença. Como as alterações musculoesqueléticas ocorrem em 90% dos casos, o fisioterapeuta atua prevenindo sequelas, preservando a marcha e o equilíbrio.

A fadiga crônica gera um ciclo cruel: o cansaço impede o movimento, o sedentarismo aumenta a dor, e a dor gera isolamento social e ansiedade. O movimento prescrito quebra esse ciclo. Ele devolve ao paciente a capacidade de realizar as atividades do dia a dia, preservando não apenas o músculo, mas a saúde mental e a dignidade.

O invisível que a cor roxa torna visível

O Lúpus é frequentemente chamado de "doença invisível". Uma mulher jovem pode parecer perfeitamente saudável por fora, enquanto trava uma batalha exaustiva por dentro. O Fevereiro Roxo serve para tornar esse sofrimento visível aos olhos da sociedade.

Como profissional de saúde, vejo diariamente que o acesso a uma fisioterapia de qualidade transforma a narrativa do paciente sobre si mesmo. Ele deixa de se enxergar apenas como "o doente" para se tornar alguém que gerencia a própria saúde com ciência e movimento. É uma mudança de identidade poderosa e curativa.

O cuidado multidisciplinar, unindo reumatologistas, fisioterapeutas e psicólogos, é o padrão ouro para o tratamento. O exercício não é contra indicado; ele é um aliado fundamental.

O roxo de fevereiro não é cor de lamento. É cor de resistência, de ciência e de cuidado. É a cor de quem não se rende.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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