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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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O seu exame de imagem pode estar adoecendo você: o impacto do Efeito Nocebo na dor na coluna

Ele ocorre quando informações ou expectativas negativas pioram a condição física do paciente.

Muitas vezes, o caminho para a recuperação de uma dor nas costas começa com um pedido de ressonância magnética. No entanto, para uma parcela significativa dos pacientes, o resultado desse exame, o laudo, acaba se tornando o maior obstáculo para a cura. Quando você lê termos como “Hérnia”, “Degeneração” ou “Desgaste”, uma cascata neurofisiológica é disparada: você começa a sentir mais medo do que, de fato, dor.

Foto: Alef Leão/GP1Marcelle Furtado, Fisioterapeuta
Marcelle Furtado, Fisioterapeuta

A Ciência por trás do Medo: O Efeito Nocebo

Na fisioterapia e na medicina, conhecemos bem o efeito placebo, mas pouco se fala sobre o seu "irmão sombrio": o Efeito Nocebo. Ele ocorre quando informações ou expectativas negativas pioram a condição física do paciente.

Ao receber um laudo com termos catastróficos, o cérebro interpreta a coluna não como uma estrutura resiliente, mas como algo "quebrado". Esse estado de alerta constante aumenta a produção de mediadores químicos que sensibilizam o sistema nervoso. Resultado? Você sente mais dor diante de estímulos que, antes, seriam inofensivos. O papel, literalmente, passa a machucar mais que a coluna.

Cinesiofobia: O ciclo vicioso do imobilismo

O medo do movimento tem nome científico: Cinesiofobia. A lógica do paciente é compreensível: "Se meu exame diz que tenho um desgaste, não posso me mexer para não desgastar mais".

Entretanto, a neurociência da dor nos mostra o contrário. O imobilismo causa:

Rigidez articular: Diminuição da lubrificação (líquido sinovial).

Atrofia muscular: Perda da estabilidade dinâmica da coluna.

● Sensibilização Central: O cérebro fica "viciado" no sinal de dor, baixando o limiar de tolerância.

O paradoxo é cruel: O repouso excessivo, motivado pelo medo do laudo, é o que frequentemente cronifica a dor que o paciente tanto tenta curar.

A verdade sobre os achados de imagem

Um dos maiores embasamentos científicos que precisamos levar ao público é que achados de imagem são, muitas vezes, "rugas internas". Estudos mostram que até 80% das pessoas sem nenhuma dor nas costas apresentam algum grau de degeneração ou protrusão discal em exames de imagem.

O exame é uma foto da estrutura, mas a fisioterapia foca na função. Um carro pode ter um arranhão na lataria (estrutura) e continuar performando como um carro de corrida (função). Da mesma forma, sua coluna pode apresentar uma hérnia e ser perfeitamente funcional, forte e indolor.

A Reabilitação Moderna: Educação e Movimento

O tratamento mais eficaz para dores crônicas, segundo as diretrizes internacionais, não é o isolamento, mas a Educação em Neurociência da Dor combinada com o Exercício Gradual.

1. Despatologização: Entender que seu corpo não está "estragando", mas passando por processos naturais de adaptação.

2. Exposição Gradual: Reintroduzir movimentos que geravam medo, mostrando ao sistema nervoso que você está seguro.

3. Fortalecimento Específico: Devolver a função aos músculos estabilizadores, dando suporte real à estrutura óssea.

Conclusão: Você não é o seu laudo

Precisamos mudar a narrativa clínica. Se você recebeu um laudo assustador, lembre-se: seu corpo possui uma capacidade incrível de resiliência e autorreparação. A imagem capturada pela ressonância não define sua capacidade de carregar seu filho no colo, de treinar ou de viver sem limitações.

Não foi a sua hérnia que te paralisou. Foi a crença de que seu corpo estava quebrado. A fisioterapia moderna não trata apenas tecidos, trata pessoas e suas funções. Quando você perde o medo, você ganha a sua vida de volta.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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