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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Por que sua canela dói na corrida? A resposta não é o que te contaram

As lesões na corrida surgem de várias situações ao mesmo tempo, se somando, até que o corpo diz: "chega".

Certa vez uma paciente chegou ao consultório com uma certeza absoluta: ela tinha dor na canela porque mexia muito o braço enquanto corria. Alguém havia dito isso a ela, e ela acreditou. Parou de mexer o braço, correu toda travada, e a dor continuou.

Isso acontece mais do que parece. E o problema começa quando a gente tenta explicar uma coisa complexa com uma resposta simples demais.

A verdade é que as lesões na corrida raramente têm uma causa única. Elas surgem de várias situações ao mesmo tempo, se somando, até que o corpo diz: "chega". Por isso, um bom tratamento começa com uma avaliação completa, não com achismos.

Os quatro pilares que explicam (de verdade) porque corredores se machucam

1. Biomecânica: como o seu corpo se move

A biomecânica é o estudo do movimento do corpo. Na corrida, um dos problemas mais comuns é o alto impacto, quando o pé bate no chão com muita força a cada passada.

Esse impacto excessivo sobrecarrega ossos, tendões e articulações. Com o tempo, o tecido não aguenta e a lesão aparece. Mas atenção: isso não significa que você está correndo "errado". Significa que o seu corpo pode precisar de ajustes e de fortalecimento para absorver melhor esse impacto.

2. Força muscular e mobilidade

O impacto excessivo muitas vezes é consequência de músculos fracos ou de articulações com pouca mobilidade. Quando o quadril não tem força suficiente, por exemplo, o joelho e o tornozelo compensam, e aí vem a dor.

A avaliação fisioterapêutica identifica exatamente onde está esse elo fraco na cadeia. Com base nisso, o tratamento é direcionado: fortalecimento específico, exercícios de mobilidade e reeducação do movimento. Nada de protocolo genérico.

3. Capacidade x demanda: o desequilíbrio mais comum de todos

Esse é, possivelmente, o maior vilão entre os corredores, especialmente os amadores empolgados.

Capacidade é o que o seu corpo consegue suportar hoje. Demanda é o quanto você está exigindo dele. Quando a demanda ultrapassa a capacidade, seja por aumento rápido de quilometragem, treinos intensos sem descanso adequado ou falta de sono, a lesão é quase inevitável.

Estudos mostram que a maioria das lesões em corredores recreativos está associada a erros de treinamento: aumentar o volume muito rápido, não respeitar dias de recuperação e ignorar os sinais que o corpo manda antes da dor se instalar.

A boa notícia? Isso é 100% modificável. Com planejamento e orientação, dá para correr mais e se machucar menos.

4. Comportamento e sistema nervoso: quando a dor vira um hábito do cérebro

Esse pilar é pouco conhecido, mas muito importante, especialmente para quem convive com dor há mais de três meses.

Existe um fenômeno chamado hipervigilância, em que o sistema nervoso central passa a interpretar estímulos normais, como o impacto da corrida, como ameaças. O cérebro, na tentativa de proteger o corpo, "amplifica" a dor, mesmo que não exista nenhuma lesão ativa no tecido.

É como se você colocasse uma lupa em cima do local que já doeu antes: tudo parece mais intenso do que realmente é.

Isso não quer dizer que a dor é "coisa da cabeça". A dor é real. Mas o tratamento, nesses casos, precisa incluir abordagens que "recalibrem" o sistema nervoso, e a fisioterapia tem ferramentas para isso, como a terapia de exposição gradual ao movimento e estratégias de educação em dor.

O que você pode fazer agora mesmo

Antes de culpar o seu braço, o seu tênis ou a sua pisada, considere:

Você aumentou o ritmo ou a distância rápido demais? Se sim, reduza o volume e respeite a progressão. A regra geral é não aumentar mais de 10% por semana.

Você está descansando o suficiente? O músculo cresce e se recupera no descanso, não no treino. Sono de qualidade é parte do treinamento.

Você tem um histórico de dor que não passa? Pode ser hora de olhar além do músculo e conversar com um fisioterapeuta sobre como o seu sistema nervoso está processando isso.

Você nunca fez uma avaliação de corrida? Uma análise completa, que inclui movimento, força, histórico de treino e até aspectos comportamentais — pode mudar completamente a sua relação com a corrida.

Por que a fisioterapia faz diferença

A fisioterapia esportiva voltada para corredores não é só para quem já está machucado. Ela é preventiva, investigativa e individualizada.

Um fisioterapeuta capacitado vai olhar para você como um todo, não apenas para onde dói. Vai entender o seu histórico, o seu nível de treinamento, os seus objetivos e, a partir disso, montar um plano que faça sentido para a sua realidade. Porque o seu corpo não é uma fórmula. E a sua dor merece uma resposta à altura.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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