O Ministério de Minas e Energia (MME) pode ter entrado no radar de uma suposta operação internacional de ciberespionagem relacionada à disputa global por minerais críticos, conhecidos como terras raras. A informação consta em um relatório elaborado por uma empresa privada de segurança digital, que aponta tentativas de monitoramento de sistemas governamentais brasileiros em meio ao avanço das negociações internacionais envolvendo esses minérios estratégicos, no contexto da rivalidade entre Estados Unidos e China.
De acordo com a investigação conduzida pela Unit 42, divisão de inteligência de ameaças da empresa Palo Alto Networks, um grupo hacker identificado como TGR-STA-1030 teria atuado contra governos e infraestruturas críticas de pelo menos 37 países ao longo dos últimos 12 meses. Entre novembro e dezembro de 2025, os pesquisadores detectaram um mapeamento sistemático de redes governamentais em 155 países, com o objetivo de identificar vulnerabilidades e possíveis pontos de acesso a sistemas sensíveis.
No caso brasileiro, o relatório indica que o Ministério de Minas e Energia estaria entre os alvos monitorados, embora a pasta negue qualquer tentativa de invasão. Em nota, o MME afirmou que não identificou tráfego anormal ou atividades suspeitas em seus sistemas e destacou que, mesmo em um cenário hipotético de acesso indevido, não haveria comprometimento de informações classificadas ou estratégicas ainda não divulgadas. O ministério informou ainda que acionou os órgãos competentes para apurar o caso.
A Unit 42 afirma ter alto grau de confiança de que o grupo atua alinhado a interesses estatais e opera a partir da Ásia, com base em padrões técnicos, ferramentas utilizadas, idioma e perfil dos alvos. O relatório ressalta que o Brasil desperta atenção internacional por ser considerado o segundo maior detentor de reservas de terras raras do mundo, minerais essenciais para setores como tecnologia, energia e defesa.
Segundo a análise, as exportações brasileiras desses minérios teriam triplicado no primeiro semestre de 2025, em paralelo ao movimento de países ocidentais para reduzir a dependência asiática. Nesse cenário, os Estados Unidos intensificaram contatos com o setor mineral brasileiro, incluindo reuniões com executivos da área e um investimento de US$ 465 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA na empresa Serra Verde, produtora nacional de terras raras.
Para os analistas, a possível atividade de espionagem coincide com o período de intensificação dessas negociações comerciais, o que reforça a hipótese de motivação econômica e estratégica. O grupo teria concentrado suas ações em ministérios e órgãos ligados à economia, recursos naturais e diplomacia. Entre os alvos confirmados em outros países estão agências de segurança, controle de fronteiras, ministérios da Fazenda, parlamentos, empresas estatais de telecomunicações e órgãos policiais.
Além do Brasil, estruturas governamentais de países como Canadá, México, Panamá, Bolívia e Venezuela também teriam sido monitoradas. A empresa de segurança informou que notificou as entidades afetadas e ofereceu suporte técnico para reduzir riscos e eventuais danos, diante da dimensão global das atividades atribuídas ao grupo.
Rodrigo Mendes
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