O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, rejeitado por seis votos a quatro após uma manobra do governo na noite da última terça-feira (14), apresentou um conjunto de acusações envolvendo supostos esquemas de influência institucional e uso de eventos de luxo para aproximação com autoridades dos Três Poderes.
O documento, com 221 páginas, foi elaborado pelo relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), e descreve o que chama de uma “sofisticada estratégia de infiltração institucional” associada ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo o relatório, Vorcaro teria estruturado um “arsenal de instrumentos de cooptação” com o objetivo de construir uma rede de proteção política e institucional, que envolveria magistrados, políticos e integrantes de órgãos reguladores.
Eventos de luxo e suposta estratégia de influência
De acordo com o texto, um dos principais mecanismos utilizados seria a realização sistemática de festas privadas e eventos de alto padrão, organizados com o intuito de aproximar autoridades e estabelecer vínculos de influência.
O relatório aponta que o próprio banqueiro teria admitido, em mensagens interceptadas pela Polícia Federal, que essas reuniões faziam parte de seu “business”, e não apenas de atividades sociais.
A CPI afirma que, ao longo de sua atuação, Vorcaro teria promovido cerca de 300 eventos desse tipo, com gastos que, segundo apurações da Polícia Federal, teriam chegado a aproximadamente US$ 11,5 milhões em 2024 — cerca de R$ 60 milhões à época.
O documento sustenta ainda que essas ações não se limitariam ao entretenimento, mas fariam parte de uma estratégia para obtenção de favorecimento regulatório e proteção institucional.
“Cine Trancoso” e alegações de esquema internacional
Um dos trechos mais detalhados do relatório trata de encontros realizados em uma casa de veraneio em Trancoso, no sul da Bahia, apelidada de “Cine Trancoso”. Segundo a CPI, os eventos eram restritos e contavam com protocolos rígidos de sigilo.
O relatório afirma que mulheres estrangeiras teriam sido recrutadas e transportadas de países como Rússia, Ucrânia, Lituânia, Suécia, Holanda, México e Venezuela, com custeio integral do banqueiro.
De acordo com os investigadores, a escolha por estrangeiras seria uma forma de reduzir riscos de identificação de autoridades brasileiras presentes nos encontros.
Também são citadas medidas de segurança, como a retenção de celulares e o uso de câmeras internas no local. A CPI afirma que esse sistema poderia ter permitido controle e registro dos participantes, embora não tenha identificado autoridades envolvidas.
Acervo digital e investigação da PF
A investigação também teria analisado cerca de 400 gigabytes de dados extraídos de dispositivos e nuvem ligados a Vorcaro. O material incluiria registros de festas no Brasil e no exterior, imagens de documentos de estrangeiras e vídeos de teor íntimo.
O relatório classifica o conteúdo como “estarrecedor” e afirma que ele reforçaria a existência de uma rede internacional de eventos privados ligados ao banqueiro.
Possíveis crimes e conclusão do relatório
A CPI conclui que os fatos narrados não se limitariam a práticas de lobby ou corrupção, mas poderiam indicar crimes mais graves, incluindo suspeitas de tráfico internacional de pessoas e exploração sexual.
Segundo o documento, mulheres estrangeiras teriam sido utilizadas como “vantagem indevida” em um suposto esquema de aproximação com agentes públicos.
O relatório também aponta que esse modelo teria como objetivo interferir na imparcialidade de autoridades e na atuação de órgãos de fiscalização, transformando benefícios privados em instrumentos de influência institucional.
Repercussão e inclusão de autoridades
O texto ainda menciona eventos realizados no exterior, como o Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como “Gilmarpalooza”, e cita supostos gastos milionários com agendas paralelas organizadas por Vorcaro durante a programação oficial.
O documento chegou a incluir pedidos de indiciamento de autoridades, entre elas ministros do Supremo Tribunal Federal e o procurador-geral da República, o que gerou reação institucional.
O Supremo Tribunal Federal divulgou nota classificando como indevida a inclusão dos magistrados no relatório e ressaltando a necessidade de respeito aos limites constitucionais das CPIs e à separação entre os Poderes.
O ministro Gilmar Mendes também criticou o relatório e pediu investigação sobre possível abuso de autoridade por parte do relator, afirmando que o documento poderia gerar constrangimento institucional e deslegitimar instrumentos jurídicos.
Wanessa Gommes
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