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O que se sabe sobre o uso do Bolsa Família para compra de drogas

Uma audiência foi solicitada pelo deputado Kim Kataguiri (União-SP).

Casos registrados por forças de segurança e pelo Ministério Público em diferentes estados voltaram a colocar em debate o uso indevido de cartões do Bolsa Família em situações relacionadas ao tráfico de drogas. O assunto ganhou repercussão após audiência realizada em 9 de junho na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, que discutiu denúncias de retenção de cartões do programa por traficantes em troca do fornecimento de entorpecentes a pessoas em situação de rua.

A audiência foi solicitada pelo deputado Kim Kataguiri (União-SP). Na ocasião, o vereador de Joinville (SC), Mateus Batista (União), afirmou ter recebido relatos de agentes públicos indicando que beneficiários em situação de rua deixariam seus cartões do Bolsa Família com traficantes como garantia para obtenção de drogas.

Foto: Lucas Dias/GP1Cartão do Bolsa Família
Cartão do Bolsa Família

Segundo Batista, relatos semelhantes teriam sido registrados em municípios como Chapecó, Florianópolis, São Paulo e Joinville. Ele atribuiu a situação ao acesso facilitado ao benefício por pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O debate ocorre em meio à ampliação do acesso ao programa. Desde julho de 2025, uma portaria do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) incluiu famílias com pessoas em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no Bolsa Família.

Dados do Cadastro Único mostram que o número de pessoas em situação de rua cadastradas praticamente dobrou nos últimos anos, passando de 198,7 mil, em dezembro de 2022, para 392,4 mil em junho de 2026 — crescimento de 97,4%.

Embora não existam dados nacionais que relacionem diretamente beneficiários do Bolsa Família ao consumo de drogas, levantamentos oficiais apontam que o uso de álcool e outras substâncias é recorrente entre parte da população em situação de rua. Um diagnóstico divulgado pelo governo federal em 2023 mostrou que 29% desse público apontava o alcoolismo ou o uso de drogas como um dos fatores associados à condição de vulnerabilidade.

Casos registrados

Nos últimos anos, diferentes operações policiais identificaram cartões do Bolsa Família em ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas.

Em junho deste ano, a Polícia Militar de Santa Catarina informou que apreendeu um cigarro artesanal de maconha junto a um cartão do Bolsa Família durante uma ocorrência em Caçador.

Já em Birigui (SP), em 2025, um casal foi preso por tráfico de drogas após policiais encontrarem cocaína, materiais utilizados para preparação dos entorpecentes e diversos cartões do Bolsa Família pertencentes a terceiros.

Em São José do Rio Preto (SP), o Ministério Público de São Paulo deflagrou, em 2024, a Operação Bolsa Crack. Conforme a investigação, integrantes de uma organização criminosa retinham cartões do Bolsa Família de usuários de crack em situação de rua como forma de garantir o pagamento das drogas consumidas.

Outro caso ocorreu em Remígio (PB), onde uma idosa de 63 anos e o neto de 16 anos foram assassinados, em setembro de 2024. De acordo com reportagem do Metrópoles, o crime teria sido motivado por um conflito envolvendo o cartão do Bolsa Família da filha da idosa, que, segundo as investigações, era utilizado por integrantes de uma facção para sacar o benefício em troca do fornecimento de drogas.

Atualmente, o Bolsa Família atende cerca de 19,3 milhões de famílias, o equivalente a aproximadamente 50,1 milhões de pessoas, com investimento mensal de R$ 13 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Durante a audiência na Câmara, Kim Kataguiri defendeu mudanças na fiscalização do programa. Entre as propostas apresentadas pelo parlamentar está a exigência de comparecimento periódico dos beneficiários aos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), com encaminhamento para tratamento de dependência química nos casos considerados necessários.

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