Após uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), quatro ações penais contra o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (MDB), foram remetidas ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A transferência dos processos foi determinada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro em decorrência de uma mudança no entendimento do STF sobre o foro privilegiado. Em março de 2025, o Supremo decidiu que o foro por prerrogativa de função volta a valer mesmo após a autoridade deixar o cargo.
Sérgio Cabral responde a mais de 30 ações penais relacionadas a crimes cometidos durante seus mandatos, entre 2007 e 2014. Anteriormente, a jurisprudência do STF, estabelecida em 2018, determinava o fim do foro especial ao término do mandato, o que causou reviravoltas jurídicas e transferências de competência entre instâncias. Três das ações remetidas ao STJ tiveram condenações anuladas por concentração de processos sob o juiz Marcelo Bretas. A nova decisão do Supremo, no entanto, mantém válidos os atos processuais realizados sob a regra anterior, mas levanta dúvidas sobre os desdobramentos em processos já julgados em primeira instância.
Entre as ações enviadas ao STJ estão casos de corrupção que envolvem empresários como Arthur Soares e Marco Antônio de Luca, além da compra de votos no Comitê Olímpico Internacional (COI) para garantir o Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016. As ações foram encaminhadas pelos juízes Alexandre Libonati, da 2ª Vara Federal Criminal, e Vitor Valpuesta, da 3ª Vara Federal Criminal — este último responsável pelo processo da Operação Fatura Exposta, que apura corrupção na Secretaria de Saúde durante a gestão de Cabral. O Ministério Público do Rio de Janeiro aprovou o envio das ações, enquanto outros processos ainda aguardam manifestação das defesas no Tribunal de Justiça e no TRE.
Sérgio Cabral foi acusado de cobrar propinas de até 5% em grandes contratos, com movimentações que incluíam cerca de R$ 300 milhões em contas no exterior, em nome de laranjas. Também foi apontado o uso de joias e pedras preciosas para lavagem de dinheiro, segundo o Ministério Público Federal. Inicialmente, ele negou os crimes, mas posteriormente os confessou. Em 2019, firmou um acordo de delação com a Polícia Federal, posteriormente anulado pelo STF em 2021. Após sua libertação, em dezembro de 2022, voltou a negar as acusações.
Das 37 ações penais que enfrentou, 35 estão relacionadas à Operação Lava Jato. As penas somavam mais de 400 anos de prisão, mas, após revisões judiciais, foram reduzidas para 274 anos. O STJ, agora responsável pelos casos remetidos, deve analisar tanto os recursos quanto o mérito das ações à luz do novo entendimento sobre o foro especial.
Izabella Furtado
Ver todos os comentários | 0 |