O relatório da Polícia Federal (PF) sobre o caso Banco Master inclui telefonemas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de uma mensagem com convite de aniversário enviada ao magistrado. O material, que soma cerca de 200 páginas, foi entregue pessoalmente ao presidente do STF, Edson Fachin, para análise.
Fachin agora avalia se o conteúdo do relatório justifica o pedido de suspeição de Toffoli, que assumiu a relatoria do caso no STF e passou a controlar integralmente o andamento do processo. O documento não solicita formalmente o afastamento do ministro, mas detalha informações extraídas do celular de Vorcaro, que indicariam proximidade entre o banqueiro e o relator.
Conversas e repasses financeiros
Entre os elementos destacados pelos investigadores estão conversas sobre repasses financeiros ligados ao Resort Tayayá, empreendimento da família Toffoli. Segundo o relatório, a empresa Maridt — que administrou o resort até 2021 — teria realizado pagamentos ao ministro, que aparece como sócio da companhia junto aos irmãos José Carlos e José Eugênio. A Maridt foi posteriormente vendida a um fundo administrado por parentes de Vorcaro.
O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como um de seus principais operadores, aparece como elo nas transações, mantendo contato frequente com o banqueiro e discutindo o resort em diversas ocasiões.
Defesa de Toffoli minimiza indícios
A defesa de Toffoli nega qualquer irregularidade. Segundo interlocutores do ministro, o relatório apenas registra quatro ligações e o convite de aniversário, que não chegou a ser respondido. Em nota oficial, Toffoli classificou as conclusões da PF como “ilações” e contestou a legitimidade da corporação para questionar sua suspeição no caso.
A defesa reconhece que Toffoli recebeu recursos da Maridt, mas afirma que os pagamentos foram regulares, correspondendo à sua posição como sócio da empresa.
Condutas controversas na investigação
A relatoria de Toffoli já provocava críticas dentro da PF antes mesmo da entrega do relatório. O ministro impôs sigilo máximo ao processo no dia em que viajou ao Peru em um jatinho privado, acompanhado do advogado de um dos diretores do Banco Master, para assistir à final da Libertadores de 2025. A aeronave pertencia ao empresário Luiz Pastore, que, no ano anterior, visitou o Tayayá acompanhado de Vorcaro e do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.
Toffoli também centralizou diversas etapas da investigação no STF, determinando que a custódia das provas permanecesse na Corte e que todas as oitivas fossem realizadas sob sua supervisão. Após críticas, autorizou que três investigados fossem ouvidos pela PF, mas estabeleceu uma lista extensa de perguntas, o que é considerado atípico em casos dessa natureza. No interrogatório de Vorcaro, por exemplo, o ministro direcionou os questionamentos a decisões do Banco Central que levaram à liquidação do Master, em vez de abordar diretamente indícios de fraude na venda de carteiras ao BRB.
Conflitos com a Polícia Federal
Agentes da PF também questionaram publicamente decisões do ministro. Em janeiro, Toffoli acusou a corporação de “inércia” por iniciar a segunda fase da Operação Compliance Zero com um dia de atraso em relação ao prazo estabelecido por ele. A PF respondeu que só pôde agir após confirmar os endereços dos alvos, com pedidos já protocolados na Justiça desde outubro, antes mesmo da prisão de Vorcaro e da liquidação do banco.
O ministro chegou a impedir temporariamente o acesso da PF ao material apreendido, liberando-o posteriormente apenas ao Ministério Público Federal. Além disso, restringiu a perícia da corporação a quatro agentes por ele escolhidos e reduziu de seis para dois dias o prazo para a realização de depoimentos, medida que, segundo os investigadores, prejudicou o andamento das diligências.
O relatório da PF segue em análise no STF, enquanto Fachin avalia se há elementos suficientes para declarar a suspeição de Toffoli no caso.
Caroline Vitorino
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