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Retrospectiva: desafios do cenário cultural piauiense diante da covid-19

Com a chegada da pandemia da covid-19, artistas que tinham planos e projetos no papel precisaram estudar uma nova maneira de chegar ao público.

O cenário cultural piauiense, no ano de 2020, precisou se readaptar diante pandemia da covid-19, e os projetos que já constavam com datas marcadas tiveram que esperar. As pessoas que vivem a arte, e sobrevivem dela, no entanto, buscaram a melhor a maneira de migrar, trazendo o que era presencial para o conforto de cada casa.

Com a chegada da pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, artistas que tinham planos e projetos no papel precisaram estudar uma nova maneira de chegar ao público.

Início de 2020

No início do ano, sem muita presença do vírus no país, piauienses de todos os municípios saíram nas ruas para pular o famoso Carnaval. Blocos que tradicionalmente acontecem durante os meses de fevereiro e março, foram vivenciados sem imaginar que logo após uma reclusão social estava por vir.

Projeto Seis e Meia

Foto: Reprodução/FacebookProjeto Seis e Meia
Projeto Seis e Meia

Para março, estava marcada a realização do Projeto Seis e Meia, um projeto que atualmente, devido a sua grande popularidade, é realizado em vários municípios do estado. Para conter a disseminação do vírus no estado e no país, tendo em vista que o projeto tem um alcance nacional, shows foram cancelados e os artistas precisaram esperar.

O Seis e Meia, que tem cerca de 20 anos de existência e é administrado pela Secretaria de Estado de Cultura do Piauí, em 2020 não foi realizado pela primeira vez desde sua criação.

Espetáculo A Paixão de Cristo

Foto: Reprodução/GoogleEspetáculo Paixão de Cristo, em Floriano
Espetáculo Paixão de Cristo, em Floriano

O espetáculo Paixão de Cristo, que acontece anualmente em todo o mundo, atrai muitos fiéis para apreciar a encenação da crucificação de Jesus, dando sua vida para salvar a todos.

Em Floriano, atores se preparam com meses de antecedência para entregar um grandioso espetáculo ao público que viaja de diversas localidades para assistir ao evento.

No entanto, a 25ª edição da Paixão de Cristo de Floriano, que estava prevista para ocorrer no mês de abril, precisou ser adiada, mas não chegou a ser realizada. Após quase 30 anos de história, o espetáculo foi um dos acometidos pela pandemia da covid-19.

Procissão de Bom Jesus dos Passos

Foto: Reprodução/Governo do EstadoProcissão de Bom Jesus dos passos, em Oeiras
Procissão de Bom Jesus dos passos, em Oeiras

Ainda durante a Semana Santa, que em 2020 foi celebrada no mês de abril, a cidade de Oeiras que contém o título de Capital da Fé, não pôde levar às ruas a famosa Procissão de Bom Jesus dos Passos.

Realizada há 200 anos, neste ano pela primeira vez os fiéis direcionaram suas preces e orações de suas casas.

SaLiPi-Salão do Livro do Piauí

Foto: Reprodução/FacebookSalão do Livro do Piauí
Salão do Livro do Piauí

No fim de maio deste ano, aconteceria o tradicional Salão do Livro do Piauí. O evento seria realizado mais uma vez na Universidade Federal do Piauí, de 29 de maio a 07 de junho.

O evento conta com a participação de grandes nomes, em nível local e nacional, lançamento de livros, vendas de livros, espaços voltados para crianças, e para quem é bom apreciador da cultura.

A direção do SaLiPi ainda estudou a possibilidade de o evento ser realizado no segundo semestre de 2020, período esperado para melhoria da situação brasileira em decorrência do novo coronavíus, no entanto, o evento não aconteceu.

Cultura junina no estado do Piauí

Foto: Reprodução/InstagramGrupo Cultural Explosão Estrelar
Grupo Cultural Explosão Estrelar

Durantes os meses de junho e julho, centenas de pessoas ocupam os principais tablados piauienses para mostrar grandiosos espetáculos que combinam dança e teatro, carregando tradição.

Por ser um meio que inevitavelmente exige grandes aglomerações, os festivais juninos precisaram migrar das quadras para a internet. Nesses dois meses, juninas do Piauí inteiro adotaram o distanciamento, e brincaram o tradicional São João dentro de suas casas, através das “lives”.

A coordenadora do Grupo Cultural Explosão Estrelar, que é um grupo junino da cidade de Teresina, Cleide Vieira, contou ao GP1 que a maior dificuldade para ela foi noticiar aos brincantes como seria realizado o São João deste ano. “Foi muito difícil para mim ter que dizer que não iria ter são João em 2020, isso nos deixou muito triste. Foi a maior dificuldade para o grupo”, relatou.

Dona Cleide, que além de coordenar a quadrilha junina, é costureira de diversos grupos juninos, diz que brincar São João é sua maior forma de entretenimento, e tem esperança de trazer sua quadrilha de volta aos tablados no ano de 2021.

“É um sentimento muito doloroso, principalmente para mim, que é meu único divertimento. Faço São João por amor à essa cultura. Não tem nada melhor do que ver sua junina toda pronta em quadra com alegria. 2021 será um ano com bastante desafios, porque não temos certeza de nada, então temos que inovar muito o nosso São João”, disse.

A cultura audiovisual

Diferente de todos os anos, os cinemas da capital teresinense e demais municípios do Piauí, se mantiveram fechados devido à crise sanitária da covid-19.

Até mesmo com a abertura gradual do comércio no Piauí, ainda no mês de agosto, os cinemas permaneceram de portas fechadas para conter disseminação do vírus.

Mesmo diante disso, artistas do audiovisual piauiense não deixaram de produzir suas obras, seguindo as medidas de segurança, levando a cultura do estado para nível nacional. Dentre os feitos, foi lançado o documentário “Niéde”, que conta a história de Niéde Guidon, uma das maiores arqueólogas brasileiras, que lutou pela criação do Parque Nacional Serra da Capivara, localizada no estado do Piauí.

Bares e Restaurantes

Ainda seguindo as normas de segurança adotadas pela Organização Mundial de Saúde – OMS, bares e restaurantes fecharam as portas por um grande período de tempo nesse ano de 2020. Isso atingiu diversos artistas locais, que sobrevivem da arte e usam esses espaços para se apresentarem.

Em entrevista ao GP1 a artista Lua Menezes, que é cantora e atriz, falou sobre como foi difícil resistir a essa situação, visto que ela se utiliza da arte como profissão e sobrevive disso. Lua explica que o cenário artístico piauiense, já por si só é bem dificultoso, pois falta mais apoio, e com a chegada da pandemia e o fechamento temporário de bares e restaurantes, isso só piorou.

“Quem sobrevive disso, de bares e restaurantes, tem toda a dificuldade para encontrar lugares que pagam o que você cobra pelo seu trabalho, mas ainda assim dá pra sobreviver. Agora imagine quando a gente se depara com nada disso?! Então para nós artistas a maior dificuldade, além da financeira, é essa coisa de estar distante do público, por que a gente não faz arte pela arte, a gente faz arte para o público”, explicou.

Assim como em alguns outros polos artísticos piauienses, a cantora disse que o que ajudou bastante foi a adaptação cultural na internet. “O que ajudou bastante, não só a mim, mas a outros artistas também, foram as redes sociais porque a gente pôde ter o contato, mesmo se não fosse igual, mas pudemos ter esse contato com o nosso público.”, concluiu.

Balé da cidade de Teresina

Foto: Divulgação/Balé da cidade de TeresinaBailarinos do Balé da cidade de Teresina em espetáculo
Bailarinos do Balé da cidade de Teresina em espetáculo

O Balé da cidade de Teresina, que tem 27 anos de existência, é uma companhia pública de dança contemporânea. O grupo atualmente é formado por 20 integrantes, sendo eles professores, bailarinos, coordenação artística, produtora, ensaiadora e direção.

Com a necessidade do contato, da aglomeração, da conexão entre bailarinos, e dos bailarinos com público, o Balé de Teresina teve a agenda de 2020 totalmente acometida, precisando cancelar todos os espetáculos previstos para o ano.

A coordenação artística do balé, no entanto, visando “alimentar” criativamente aos bailarinos, e fazê-los refletir sobre a situação, decidiu trazer o espetáculo para o público virtual, fazendo com que independente da situação, a cultura fosse continuada.

“A ideia veio da coordenação artística, após alguns encontros via zoom, vimos que seria o momento ideal para experimentar uma criação nestas condições, já que estávamos trabalhando on-line e revendo o que fazia ou não sentido nesse formato remoto. O objetivo maior era nos alimentar criativamente e poder refletir sobre essa situação através da nossa linguagem artística, que é a dança. Então veio o Morada [espetáculo], porque também não fazia sentido apenas exibir os trabalhos de palco. Fomos criar algo coerente a partir do formato remoto.”, relatou a coordenadora artística do Balé da cidade de Teresina, Janaína Lobo.

Jeciane Sousa, bailarina e professora do Balé, explicou ao GP1 em entrevista que o que mais foi prejudicial a ela, quanto profissional, foi não poder ter o contato direto com o público. “O contato físico é muito importante, conta muito, e ter que dançar longe das pessoas, virtualmente e sem sentir a mesma energia, é totalmente diferente, é uma reinvenção.”

Programa E+ Equatorial

Diante das dificuldades vividas no cenário cultural, a empresa de energia Equatorial, tem atuado durante a pandemia, no que diz respeito a auxiliar no incentivo à cultura. Se trata do programa E+ Equatorial, que direcionou cerca de 6 milhões de reais divididos para 71 projetos contemplados no Piauí inteiro.

Os projetos foram selecionados pelo Sistema Estadual de Incentivo à Cultura – SIEC, que atendeu projetos como por exemplo o Projeto Música Para Todos, que surgiu no ano de 1999, e durante sua existência já recebeu alunos de todas as classes. O projeto também atuou dentro das escolas da rede pública de ensino no Piauí.

Lei Aldir Blanc

Além do projeto, foi criada em junho deste ano a Lei Aldir Blanc, que direciona ações emergenciais ao setor cultural em todos os estados do Brasil, a fim de auxiliar artistas durante o período de calamidade pública.

Com a criação da Lei, foram destinados cerca de R$ 3.000.000.000,00 (três bilhões de reais), destinados por meio de editais, renda mensal a trabalhadores da cultura, subsidio para manutenção de espaços culturais e outros.

O Grupo Cultural Explosão Estrelar foi um dos contemplados pela lei, podendo assim iniciar a criação de um projeto para o ano de 2021. “Com essa lei ficou mais fácil pra Secretaria de Cultura ajudar a cultura do nosso estado, e o nosso grupo foi beneficiado também. Foi uma ajuda muito boa, isso nunca tinha acontecido pra cultura antes.”, afirmou Cleide Vieira, coordenadora do grupo Explosão Estrelar.

A lei que foi prevista para permanecer em vigor durante os meses da crise, em 2020, foi prorrogada na última segunda-feira (28) para o ano de 2021 também, podendo auxiliar o cenário cultural, tão devastadamente afetado, na era de pós-pandemia.

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