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Saúde

Restrições da covid evitaram dengue em 720 mil pessoas em 2020

Pesquisa revela declínio acentuado nas infecções em todo o mundo no primeiro ano da pandemia.
Por Estadão Conteúdo

As medidas de saúde pública destinadas a impedir a propagação da covid-19 tiveram uma consequência não intencional na América Latina e no Sudeste Asiático em 2020: evitaram as infecções pelo vírus da dengue em centenas de milhares de pessoas, de acordo com um estudo publicado na revista The Lancet este mês. A pesquisa oferece pistas para novas estratégias de combate a uma perigosa doença tropical que vinha infectando mais e mais pessoas a cada ano.

A pesquisa revelou um declínio acentuado nas infecções a partir de abril de 2020 em muitas regiões onde a dengue é transmitida por mosquitos; o estudo estima que houve 720 mil menos casos de dengue em todo o mundo no primeiro ano da pandemia, devido a restrições de movimento.

“Descobrimos benefícios realmente inesperados das restrições da covid que nos ajudarão a combater melhor a dengue no futuro”, disse o Dr. Oliver Brady, epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, um dos autores do estudo.

Em 2019, mais de 5 milhões de pessoas foram infectadas com dengue – também conhecida como “febre quebra-ossos” pelas fortes dores articulares e musculares que causa.

Brady disse que, no início da pandemia, ele e outros pesquisadores de doenças infecciosas temiam um desastre, pois os recursos foram desviados para a covid-19 e outras medidas de controle de doenças – como a pulverização de mosquitos – foram interrompidas. O enorme declínio nos casos de dengue foi uma feliz surpresa e os deixou ansiosos para descobrir o que o poderia ter causado. Eles eliminaram outros fatores potenciais, como mudanças ambientais e quedas nos relatórios sobre dengue por agências de saúde pública. Restou apenas a grave interrupção no movimento de pessoas como uma explicação plausível, disse ele.

O fechamento de escolas, em particular, parece ter desempenhado um papel fundamental na redução dos casos de dengue. O principal vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti, se alimentam durante o dia. A maioria dos programas de controle da dengue se concentra nas casas das pessoas – pulverizando para matar mosquitos e monitorando a presença de água parada que possa criá-los – supondo que é onde a transmissão acontece.

“Mas, se a casa realmente fosse o local de maior risco e os mosquitos estivessem picando apenas em casa, você esperaria que as ordens de quarentena aumentassem o risco – mas simplesmente não vemos isso na maioria dos países”, ele disse.

Os pesquisadores não estão sugerindo que os pedidos de isolamento em casa devam continuar, mas a circunstância extraordinária permitiu uma visão inesperada. Brady disse que as descobertas sugerem que as picadas do mosquito acontecem na escola ou nos locais de trabalho, o que significa que o controle do mosquito deve se concentrar nos locais públicos. A dengue também pode ter diminuído durante as ordens de quarentena porque as pessoas infectadas não estavam saindo para onde novos mosquitos poderiam mordê-las e depois passar o vírus para outras pessoas.

As descobertas sobre a dengue podem ser relevantes para outros vírus transmitidos por mosquitos intimamente relacionados, como Zika e chikungunya, sugere o estudo. Mas Brady alertou que os dados da dengue para 2021, que devem estar disponíveis em breve, e para um período pós-pandemia podem trazer más notícias: as taxas de infecção podem voltar aos níveis pré-covid ou algo ainda pior, se os programas de controle de vetores forem interrompidos. E os níveis de imunidade podem ter caído porque menos pessoas estiveram expostas à doença, disse ele.

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