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Colunista Feitosa Costa
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Tributo a Olivia Alves Costa: solidária, leal, destemida e franca


Imagem: ReproduçãoClique para ampliarOlivia Alves Costa, mãe do jornalista Feitosa Costa(Imagem:Reprodução)Olivia Alves Costa, mãe do jornalista Feitosa Costa
Depois que sai do cemitério São José neste domingo, dia 11 de maio, muitas cenas da minha infância, da minha juventude e da minha vida se descortinaram de repente como uma seleção de filmes marcantes..Apareço em todos os episódios assim como meu pai Manoel, minha irmã Socorro e meu irmão Manoel Filho.Como protagonista das cenas mais fortes surge a figura de uma mulher sem medo, leal, franca e decidida: Olivia Alves Costa, minha mãe,  que perdi no último dia 1º de maio.

As cenas são muitas e se passam em  Fortaleza, Belém, Teresina e Imperatriz, no Marão.Escolhi dois episódios para, relembrando-os, homenagear essa mulher que terá a minha eterna gratidão , respeito e admiração.

No primeiro deles eu tinha 13 anos, era o ano de 1968 e os militares, com a recente edição do AI 5 haviam endurecido o regime.Mário Souto, grande alfaiate e muito amigo de meu pai Manoel, era o secretário do Partido Comunista no Ceará e vinha disfarçando sua ideologia desde que Jango havia sido deposto.

depois do ato institucional, porem, não houve mais contemplações e o alfaiate passou a ser caçado por toda Fortaleza.Cedinho ele havia baixado as portas da alfaiataria, nas proximidades da Praça do Ferreira, e procurado se esconder.Ninguém queria lhe dar abrigo, a sua foto havia aparecido na TV Ceará canal 2, mostrando o seu perfil, com a sua conhecida careca e as pessoas se amedrontavam.

Na rua Abilio Martins, em Fortaleza,bairro Parquelândia, lembro que minha mãe viu o noticiário: "o comunista Mário Souto está sendo procurado na cidade pelos militares......!"

Ouvi quando ela foi avisar meu pai e disse: "Manoel, temos que ajudar o Mário.....estão atras dele por causa de politica".
Mário foi encontrado por meu pai e depois ajudado a sair de Fortaleza, indo para o Rio de Janeiro.
Muitos anos depois, quando funcionários do cemitério São José em Teresina  baixavam o corpo de meu pai Manoel Feitosa à sua sepultura, um retardatário gritou: "parem, esse homem não pode ser enterrado sem que eu conte uma história".

Era o filho mais velho de Mário Souto, que pegara um avião em Fortaleza e estava ali para o sepultamento.Ele narrou o episódio, olhando para Olivia, que se despedia do marido num final de tarde muito triste para todos nós.

O segundo episódio se deu numa fria madrugada na rodoviária de Imperatriz, onde eu, minha mãe e meu irmão, aguardávamos o ônibus que fazia a rota Brasilia/Belem.Estávamos ali porque anos atras, Olivia, supersticiosa, havia dito que não colocaria mais em risco a vida dos filhos viajando de avião.Isto depois de um vôo em que eu estava com ela,  de Belém para São Luis, quando o avião da Paner quase cai pouco antes do pouso em Tiriricau.Por causa disso, para irritação de meu pail, saia de Teresina pela empresa Tavares, enfrentava mais de um dia de viagem até Imperatriz em estrada de chão  para depois seguir para Belém.Achava que voltando a uma aeronave com os filhos seria queda na certa.

Há 42 anos atras, Imperatriz era uma cidade muito perigosa, mas Olivia estava ali com os dois filhos.Bonita, vestindo calça Lee comprada no porto de Belém, frasquera laranja igualmente importada, dentro da qual levava sempre uma imagem de  Nossa  Senhora do  Perpetuo
socorro, Olivia ouvia nossas reclamções quando chega um homem ensangrentado, olha para mim e diz: "foi você quem me esfaqueou, seu moleque!"

Olhei para um lado, para o outro, não vi um único policial e comecei a me tremer todo, com muito medo.De repente, como que irrompendo feito um vulcão, minha mãe se dirige com o dedo em riste na direção do desconhecido e  diz: "o que você pensa que está fazendo, esse menino é meu filho, se retire daqui imediatamente".

O sujeito começou a se afastar, ao mesmo tempo em que outras pessoas, inclusive um policial fardado, chegaram ao local.

Obrigado por tudo, dona Olivia.O seu destemor, a sua determinação, a sua lealdade e a sua solidariedade sempre estarão dentro de mim.Tenho um imenso orgulho de você.Cuide bem ai em cima do grande amor de sua vida e do seu filho caçula, que agora tem a sua eterna proteção.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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